Parecia que uma gigantesca neblina havia tomado conta do lugar. Enquanto alguns ébrios fumavam seus cigarros falsificados e ingeriam uísque de forma desenfreada ao conversar com prostitutas, uma dupla sertaneja, de início de carreira, perdia a voz ao tentar impressionar aqueles homens gordos, barbudos, exalando a sovaco mal lavado, numa tórrida madrugada de verão.
A cerveja derramada em todo o chão do local fazia a sola do sapato ficar mais pegajosa e lembrava João (que era novato na área) sua infância junto à mãe - gerente de prostíbulo de beira de estrada por quase 20 anos.
Dona Matilde, mãe solteira, e conhecida pelos colegas de infância de João como a “tia do puteiro” tinha o hábito de colocar cerveja na mamadeira do filho; e o fazia beber até vomitar. Não era o que podemos chamar de “mãe convencional”.
Estimulado por Matilde, aos 13 anos já era viciado em álcool, cigarro, cocaína e sexo. Não que os vícios do filho tinham sido planejados pela matriarca, todavia, no auge dos oito anos, a cada garrafa de cerveja que o rapaz virava num só gole, tinha direito a uma noite com qualquer “funcionária” do estabelecimento.
Enquanto a dupla sertaneja quase desfalecia de tanto gritar e as frenéticas gargalhadas atormentavam João, mais recordações lhe soltaram à mente. Ele começa a entender porque está ali.
Aos 15 anos trocara o sexo por drogas, bebidas e passara boa parte da juventude em clínicas de recuperação mantidas pelo Estado. Aos 28 anos, casa-se com Cheila, “mulher admirável”.
Ela com 18 anos casa-se com João na esperança de uma vida melhor. Retirante nordestina e de aparência amarronzada, encontrou nos braços do gerente de banco, uma vida economicamente segura.
Todavia, a retirante não esperava que o jovem marido pudesse ser sexualmente impotente – detalhe que João ocultara antes do casamento, concebido sem direito a “pré-aquecimento” até o momento da troca de alianças.
Era o terceiro dia de casados e embora João - que tomava todos os remédios existentes com a promessa de aumentar o estímulo sexual - não tivesse conseguido copular até o presente momento, acreditava no amor. Ele era uma espécie de “romântico às avessas”.
Ao retornar à consciência, sentado numa mesa próxima ao banheiro, ouve “gemidos” que lhe causam certos remorsos.
- Transei com centenas de mulheres desde que me conheço por gente e agora não consigo afogar o ganso com a minha esposa! Esbraveja o sujeito ao deixar o turbilhão de pensamentos escaparem-lhe pelas cordas vocais.
Após a confissão acende um cigarro, dá um bom gole no uísque e um tiro na cabeça.
Artur Zingano Jr.
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