quarta-feira, 30 de junho de 2010

Diário de um morto

Tudo escuro. Simplesmente não há nada aqui, com exceção da minha voz, que ecoa como se eu estivesse numa caverna. Ouço minha voz, tento tocar meu corpo, mas não existe corpo.
Sabe aquela história de deus sentado numa grande poltrona de ouro e a seu lado dois dos seus melhores anjos, bancando os seguranças caso o réu tenha algum problema com a sentença divina? Não existe.
Também não vi o diabo, armado com seu tridente, pés de cabra, olhos de bode e chifres de boi. Não há nenhum lugar quente, pessoas gritando, rios de fogo, o fedor do enxofre, as trombetas do inferno. Só a minha voz, que nem mesmo eu sei de onde vem.
Tudo começa a ficar perturbador, não sinto fome, sede, fadiga, não sinto nada, nem tédio, porque não existe nada. Estou cego e anestesiado.
Superado esse problema - após um longo tempo-, comecei a me acostumar a não existir, ou melhor, a ser apenas uma voz, literalmente na escuridão.