O escuro de João
Tudo escuro. Simplesmente não existia nada, com exceção da voz de João, que ecoava como se estivesse numa caverna. Confuso, o rapaz tenta sentir seu corpo, mas não havia nada.
Ele não sabia exatamente o que acontecera.
Em sua última lembrança, João estava deitado na cama e antes de dormir havia visualizado o relógio de cabeceira, que marcava 3h em ponto.
Atormentado pelo fato de não existir e ao mesmo tempo escutar seus pensamentos em voz alta, João acredita estar sonhando de forma consciente. Ele resolve interagir.
- Já que é um sonho, vou esperar algo acontecer, vai vê eu morri e vou me encontrar com o criador - Pensa, empolgado com a idéia de visualizar deus numa espécie de “soneca consciente”.
Então, João ficou ali, à espera de deus, ouvindo apenas o eco de sua voz, pelo que parecia ser um longo período de tempo.
Esperou, esperou e nada de enxergar deus sentado numa grande poltrona de ouro, ao lado de dois dos seus melhores anjos da guarda - bancando os seguranças caso o réu tenha algum problema com a sentença divina.
Impaciente, começou a esbravejar palavrões impronunciáveis contra o todo poderoso. Tudo na expectativa de pelo menos encontrar o diabo, armado com o tridente, pés de cabra, olhos de bode e chifres de boi, para trocar algumas palavrinhas.
Nada aconteceu. Ele não conseguiu nem vislumbrar aquele lugar quente, onde há pessoas gritando peladas no meio da lama ao lado de rios de fogo exalando o inebriante fedor do enxofre ao som das malévolas trombetas infernais anunciando a presença do Cão. Literalmente João se dá conta de que está perdido num sonho maluco. De repente tudo começa a ficar perturbador. Ele observa que não consegue sentir fome, sede, fadiga, tédio, absolutamente nada.
Algo acontece. Uma coceira de enlouquecer toma conta de suas costas, mas não existe corpo para coçar. Desesperado, João tenta acordar, de repente, um barulho ensurdecedor de algo que se assemelha ao som de uma furadeira lhe parece explodir os tímpanos.
- Pobre rapaz, tão jovem e morreu dormindo. Escuta o jovem cadáver, apavorado e sem saber de onde vem a voz diferente.
- Vamos doutora, abra logo o crânio dele, para darmos o laudo do acidente vascular cerebral à família.
O barulho começa a ficar ensurdecedor, enquanto João (que apenas consegue ouvir) grita para que desliguem o aparelho. Ele queria que o escutassem, assim saberiam que estava vivo. Mas ninguém o escutou.
Então, após um longo tempo, João começa a se acostumar a não existir, ou melhor, a ser apenas uma voz, literalmente na escuridão.
Artur Zingano Jr.
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